Aqui é mais gostoso

Quando o bebê recém-saído da maternidade chegou em casa, apesar de ter um quarto todinho preparado e decorado lindamente só pra ele, seu destino foi um mini-berço ao lado da cama do casal.

Seguindo a orientação da pediatra, ela não achou ruim, já que facilitaria as mamadas noturnas e evitaria ter que levantar no meio da noite para ir ao outro quarto. A privação de sono – ela viria a descobrir logo em seguida – era um grande problema.

Como sempre faz, o tempo passou como um piscar de olhos e, mesmo após a liberação da pediatra para o garotinho dormir em seu próprio quarto, ele continuou ali por muitos meses. Até que seu tamanho não permitiu mais.

Já crescido, ganhou uma cama de solteiro em formato de casinha e ficou muito feliz pela nova etapa que chegava. Acostumou e ficou ali por muito tempo. Quando se sentia inseguro, chamava os pais no meio da noite, sem levantar.

De uns tempos pra cá, sem explicação alguma, o menino passou a se levantar no meio da noite e deitar na cama dos pais. Já com prática, faz tudo em silêncio e rapidamente, para não ser notado. Muitas vezes eles só percebem que ele está ali no dia seguinte.

Outro dia a mãe perguntou: Por que você vem para a minha cama? E ele respondeu: porque é mais gostoso dormir aqui. Semana passada, após pintar seu quarto, o casal não pôde dormir lá por causa do cheiro forte e se mudou para o quarto do menino.

Assim como acontece na cama deles, eles chegaram e se acomodaram quando o menino já estava dormindo. O pai na bicama embaixo, e a mãe ao lado do menino. Quando abriu os olhos e viu a mãe, ele perguntou: Mamãe, por que você dormiu aqui do meu lado? Ela explicou, mas ali aconchegada ao lado do filho, teve vontade de dizer: porque é mais gostoso aqui.

Por que?

Mamãe, por que o porco espinho é marrom? Por que o sol se põe no mar? Por que alguns amigos têm irmãos e outros não tem? Por que alguns adultos têm filhos e outro não? Para que serve o sonho? O sonho é tipo uma televisão, né, mamãe?

Ufa! Essas são só algumas das centenas de perguntas que o menino, no auge dos seus 4 anos faz diariamente para a mãe. Na ânsia de descobrir e devorar o mundo. Numa tentativa de entender como cada coisa funciona. É lindo de ver, mas também pode ser exaustivo responder tudo. Principalmente porque ela não tem todas as respostas.

Mas ela gosta de deixá-lo livre para pensar, perguntar e criar. As crianças têm uma criatividade muito peculiar. Dizem que o adulto criativo é a criança que não morreu. Então, ela faz o possível para que essa criança cresça, mas nunca perca a essência pura e criativa.

Ela sabe que nós nem sempre teremos todas as respostas mesmo. Mas acredita na importância de nunca deixar de ser curioso e de fazer as perguntas necessárias. É isso que move as pessoas e move o mundo. Então, enquanto houver um por que daquele garotinho cheio de vida, ela vai dar asas para que essa chama acesa dentro dele nunca se apague. Porque se tem algo que pode realmente mudar o mundo, são as razões impulsionadas por tantos por quês não respondidos.

Viver e conviver

Existem diferentes formas de família na vida. A família de origem, que são pai, mãe, irmãos; a família que é construída durante a caminhada: marido, filhos; a família que vem junto de maneira agregada (sogros, cunhados) e, por fim, mas não menos importante, a família que não possui laços sanguíneos, mas desempenha papel importante na vida de um indivíduo. Pessoas que cruzam o caminho e sabe-se que não por acaso.

A convivência e afinidade entre esses membros todos nem sempre tem muito entrosamento e sintonia. Criações, crenças, energias e valores diferentes convivendo. Pode ser muito rico, mas também pode se transformar em uma bomba.

Encontros se fazem necessários periodicamente e então começam a gritar as diferenças. Sabendo disso, ela não se sentia bem, preferia evitar algumas situações e até diálogos numa tentativa de não ir contra seus valores e por se sentir agindo com falsidade ou ainda por não querer receber vibrações negativas.

Então ela entendeu: não adiantava se revoltar e tentar mudar pessoas e evitar situações. Muito menos fechar a cara e gerar mal estar. Todos entram na vida para ensinar alguma coisa. Mesmo que seja fazer enxergar a própria sombra.

Seu papel era agir com empatia – por mais difícil que fosse – e vibrar na boa energia pela qual ela trabalha constantemente para viver bem e em harmonia. Essa é a única maneira eficaz de mudar alguém ou alguma situação. Já diz a frase que ela tanto gosta: “Quando a gente muda, o mundo inteiro muda.”

Na última reunião familiar não houve cara feia, nem mal estar. Mas diálogos cordiais, sem proximidade e aprofundamento. E então ela aprendeu que isso era ter maturidade, demonstrar respeito pelo próximo. E que ela pode viver sem precisar conviver.

Escrever um livro

A primeira vez que pensei em escrever um livro foi há mais de dez anos quando assisti Sex and the City pela primeira vez.

Ver Carrie, a protagonista, ali sentada na escrivaninha na frente da janela do charmoso apartamento em Nova York, ou ainda em cafés da cidade; todo o processo de pesquisa que ela fazia e como traduzia tudo que vivia em texto, foram inspiradores pra mim. Sem contar, claro, todo o glamour envolvido numa série como essa.

Pensei até em cursar Letras para colocar esse plano em prática, mas depois mudei de ideia. E uma vez quase me inscrevi em um projeto da Folha para desenvolver um livro em conjunto. Não lembro muito bem, mas havia alguns temas que os candidatos escolhiam, faziam a pesquisa, e, posteriormente publicariam com o apoio do jornal – algo assim. Mas também, não me achei capaz e deixei a ideia de lado.

Eis que essa ideia vem passeando pela minha mente de novo. Antes, sempre que eu pensava nisso, dizia: ah, mas vou falar o que? Não tenho assunto. Então, juntando os registros da minha bagagem interna, me lembrei que o primeiro livro da Carrie (citada no início do texto) foi uma coletânea das suas melhores colunas do jornal em que escrevia. Essa semana comecei a ler um livro sobre maternidade (inclusive fui ao lançamento, postei tudo no insta @fabiolamininel) que também tem esse formato com a união de vários textos.

Também essa semana ouvi um podcast muito inspirador (anota essa dica valiosa aí: @swamilideranca) em que a convidada falava sobre projetos grandiosos para o futuro nos quais ela acredita muito. E então pensei: a gente tem que acreditar nos próprios sonhos, né? Senão quem vai acreditar?

Então resolvi materializar com papel e caneta – ops, teclado e tela do notebook mesmo, nesse caso – essa vontade já na intenção de jogar para o universo e fazer esse movimento em busca dos meus sonhos. Por que não?

Feliz Dia das Mães

Na semana em que é comemorado o Dia das Mães, não tem como não lembrar da minha. Mas desde que eu me tornei uma, esse dia deixou de ser triste e nostálgico e passou a ter outro sentido pra mim.

Minha mãe partiu também em maio, logo depois do Dia das Mães.Mas esse não é um texto triste nem para lamentar a partida da minha mãe. Sim para relembrar e reconhecer a importância do papel dela na minha vida e, agora, por consequência, na vida do Otto.

Sim, porque muito do que sou como mãe devo a ela. Todo carinho, dedicação, doação e valores que ela me transmitiu foram importantes para me formar como pessoa e como mãe. E ela era tão boa que rolou até uma necessidade de trabalhar questões dentro mim para não me comparar e separar a mãe que ela foi da mãe que eu sou.

A comida fresquinha na mesa, as noites sem dormir me esperando chegar, o cuidado e preocupação incansáveis quando eu ficava doente, foram só algumas das formas dela de demonstrar amor. Com ela também aprendi a ser forte apesar de toda fragilidade e vulnerabilidade e a ter alegria e vontade de viver – e como ela teve e lutou pra isso.

Com todo conhecimento sobre a minha mãe e sobre a mãe que estou sendo hoje, espero oferecer ao Otto os valores que considero importantes e as condições para que ele cresça, crie asas e se torne um homem forte, amoroso e bem resolvido. Nesse Dia das Mães, vou celebrar com ele esse papel tão importante na minha vida – o maior deles. E vou relembrar com muito amor toda a jornada da minha mãe enquanto esteve aqui do meu lado. Saudade, dona Helena. E Feliz Dia das Mães.

A primeira vez a gente não esquece

Tem muitas primeiras vezes que são marcantes e ficam na memória. Depois que me tornei mãe, venho colecionando algumas. A última delas foi na semana passada, quando Otto dormiu pela primeira vez fora de casa.

Eu já desconfiava que ele tiraria de letra, mas não achei que fosse tanto. Nem que eu tremeria na base. O combinado era ele dormir na casa do primo (meu sobrinho afilhado) e depois o primo dormir aqui – ambos pela primeira vez.

Planejei um date romântico com o marido e seguimos o plano. Levamos Otto pra casa dos meus cunhados e, chegando lá, dando as coordenadas, me senti um tantinho nervosa. Meio fora do ar. Ele mal se despediu. Saiu correndo sem olhar pra trás. Voltou para dar um beijo porque eu pedi.

Expliquei que iríamos jantar e que qualquer coisa voltaríamos para buscá-lo. Mas ele estava tão empolgado com essa novidade, que isso ficou totalmente fora de cogitação. Chegamos em casa e um tempo depois, a prova de que tudo corria bem: uma foto dele assim que adormeceu.

Respirei aliviada. Por ele ter ficado numa boa, feliz, não ter sofrido, ao contrário, ter curtido muito. E também por ele se mostrar independente, o que facilita em futuras vezes, até em casos de precisarmos que ele fique por algum motivo. Mas ao mesmo tempo – dualidades – um ladinho meu egoísta talvez quisesse que ele sentisse falta, perguntasse.

A gente cria o filho para ele ser independente e autônomo. Quando ele começa a se mostrar assim, a gente quase tem vontade de voltar atrás. Isso é maternar.

Mas para encerrar a história com saldo positivo para o meu lado coruja, quando estávamos saindo de casa para levá-lo, ele disse: “vou sentir muita saudade de vocês”. E o meu coração se encheu não só de saudade, mas também de orgulho por essa vitória que ele conquistou e por ele vir se mostrando tão forte e independente apesar de ser ainda tão novo.

Telefone, pra que te quero?

Para alguém da geração Y, como eu, o telefone já foi um dia item de sobrevivência. Numa infância e adolescência bem analógica, praticamente sem internet e redes sociais (tô entregando muito a idade?), o telefone era primordial para horas de conversa fiada com as amigas.

Minha mãe vivia gritando: “Sai desse telefone!” “A conta vai vir um absurdo!” E eu respondia em minha defesa: “Não fui eu que liguei, foi ela!” e seguia o bate-papo. Só que a conta chegou: gastei uma fábula de conta telefônica e tomei uma bronca daquelas que ficam marcadas.

Mas também chegou a conta de um outro jeito. Eu não suporto mais falar ao telefone. Tenho bode mesmo. Seria o acúmulo de horas pendurada anos atrás? Trauma por ter levado bronca? Ou apenas um reflexo dos novos tempos, onde tudo pode ser resolvido com uma – sucinta e bem escrita – mensagem de texto?

Fato é que tenho pavor de ouvir o telefone tocando. Sou capaz de não atender e mandar mensagem em seguida: me ligou? (Desculpa, pai!) Me julguem. E a famigerada frase que chega via WhatsApp: “Posso te ligar?”. Não, cara pálida! – o problema é que nem sempre dá pra falar não.

Brincadeiras à parte, tenho observado que da minha geração pra cá, as pessoas não gostam mesmo e têm usado cada vez menos o telefone em sua prosaica forma de uso: falar. Quanto tempo pode ser poupado com uma conversa por e-mail ou WhatsApp, não é mesmo?

Fora que hoje se tornou até um pouco falta de educação e invasão de privacidade, já que não se sabe o que o receptor está fazendo do outro lado da linha. Por ora, fica aqui meu apelo, telefone só em caso de emergência. Vivamos os novos tempos, afinal.

Levantar voo

Quando se é mãe, pressupõe-se conduzir uma criação pautada em permitir que a criança seja confiante e autônoma. Na prática muitas vezes não é assim.

No caso dela, que já havia superado a fase em que achava que deveria fazer tudo pelo filho – muito mais pelo medo do julgamento externo do que por convicção própria – foi assim mesmo, sempre incentivando a criança a criar as próprias asas com confiança.

Até dias atrás, quando chegou o comunicado da escola a respeito de um passeio. O primeiro da vida do menino de 4 anos. Um dia todo em uma fazendinha, aprendendo e vivenciando muitas coisas novas. Embora ele já esteja acostumado a ficar na escola, agora será diferente: ele vai entrar em um ônibus com os coleguinhas e a equipe da escola para começar a explorar esse novo mundo.

Na hora em que leu a mensagem, veio um misto de sentimentos: a alegria pelo primeiro passeio e todas as novas descobertas que vão vir com ele, mas também o aperto no coração por pensar no seu menininho tão pequeno indo passear “sozinho”.

Em nenhum momento cogitou não deixar. Esse é só o começo e faz parte de uma vida de voos a serem alçados. O importante é dar força e estabilidade para ele levantar voo (apesar de sua própria base estar bamba). Mas também saber que ele tem o porto seguro quando quiser aterrissar. É só o início de voos lindos e altos.

A maternidade

Ela sempre gostou de crianças. Era aquela pessoa que não podia ver um bebê que já logo pedia para pegar no colo e acompanhava de perto os bebês de amigas e familiares, sempre atenta a esse universo.

Depois de casada, sabia que queria, mas não o fez logo de cara. Quando pensou que poderia ser a hora, chegou a se questionar se iria percorrer aquele caminho por vontade própria ou se estava apenas fazendo “o que manda o figurino”, já que vinha compondo a tríade – faculdade, casamento e então, filhos.

O casamento estava na melhor forma, a idade era boa, a liberdade conquistada também. Após atravessar problemas familiares, aquele período era um respiro para o casal, vivendo momentos de plena felicidade em sua própria casa, indo a restaurantes, curtindo viagens…

Após ponderar tudo, concluiu que a jornada da maternidade aconteceria. E que todos aqueles bons momentos eram efêmeros. O tempo iria passar e chegaria um hora em que seriam apenas os dois, e isso seria muito sem graça na velhice.

Partiu rumo a essa jornada tão romantizada quanto desconhecida. E por mais que as pessoas falem e espalhem teorias por aí, cada caminho é muito particular. Primeira lição: você não tem controle de nada – um problema para alguém que vinha se descobrindo altamente controladora.

Mas a parte boa que ela encontrou nisso tudo foi ter se descoberto. Sim, porque na busca por conhecer e oferecer seu melhor ao filho, deparou com um caminho tão lindo quanto tortuoso e dolorido: o de se autoconhecer.

Um caminho sem volta que proporcionou um mergulho interno profundo e constante. Que expõe feridas, mas também apara arestas e a torna melhor para ensinar o melhor ao filho. Não é fácil, mas é bonito e gratificante.

A terapia

Ela sempre foi simpatizante da psique e de diferentes formas de terapia que explorassem a mente humana. Psicologia, inclusive, foi uma das opções de faculdade cogitadas na época do vestibular.

Porém, a terapia ainda não tinha sido um terreno explorado por ela. Achava chique quem fazia e sempre teve curiosidade sobre o processo para o conhecimento próprio. De alguma forma, seu momento de adentrar esse universo ainda não tinha chegado.

Depois de identificar uma certa ansiedade invadindo sua vida e atrapalhando de alguma forma, achou que era hora. Não foi fácil conseguir horário.

Chegado o dia, a temida ansiedade e uma certa tensão por medo do desconhecido apareceram. Apesar disso, ela conseguiu se abrir, e, com as perguntas certas feitas pela psicóloga, pôde acessar gatilhos que ela própria não sabia que poderiam sê-lo.

Fez um retrospecto e muitas coisas passaram a fazer sentido. A sessão foi curta, passou rápido, e apesar de não entender ainda muito bem a dinâmica entre profissional e paciente (aquela cara de paisagem e ausência de expressões durante seus relatos pareceram estranho num primeiro momento), ela acredita que foi uma boa primeira impressão e que pode agregar de maneira positiva em sua vida.

Uma reflexão sobre morte

A única certeza absoluta que temos na vida é que a morte um dia irá chegar para todos nós, cedo ou tarde.

Quando ela chega cedo a pessoas conhecidas, esse pensamento toma conta e traz a reflexão. Esse fim de semana soube da morte de um ex-colega de trabalho que me deixou chocada e me fez questionar: não foi cedo demais? Afinal, quando não é cedo demais?

Uma pessoa jovem, que deixa família, amigos, enfim, uma vida que se vai e deixa rastros. Acredito que temos uma missão a cumprir nesse plano, e uma vez cumprida, após nossa evolução e aprendizados enquanto seres espirituais, a passagem acontece.

Mesmo sabendo disso, é difícil não questionar qual o plano quando a partida é prematura. Quantos desejos e sonhos ficam para trás, quantos momentos especiais deixam de ser vividos.

O clichê cabe muito bem aqui: é preciso viver cada dia como se fosse o último. Nunca saberemos quando será o último beijo, o último eu te amo, o último abraço. Então nos resta cumprir nossa missão aqui com amor e alegria para que, quando nossa hora chegar, deixarmos saudade e o perfume de uma vida bem vivida e preenchida de amor.

Amizade

Existem diferentes tipos de amizade. Desde crianças até a fase adulta vamos conhecendo pessoas e ampliando nosso círculo. Algumas seguem a caminhada ao nosso lado, outras vão por outros rumos e nunca mais ouvimos falar.

Tem a amiga da escola, do prédio, do bairro, do inglês; os amigos da faculdade, do trabalho; amigo do amigo; amigo do marido/esposa; filho da amiga da mãe, enteados da mãe ou do pai… são diferentes relações com um só propósito: a cumplicidade.

Para dividir, histórias, momentos, dúvidas. Em diferentes fases da vida, aparecem diferentes amigos. Com uns, temos mais intimidade, com outros menos. Mas uma coisa é certa e comum entre eles: todos vêm para nos ensinar alguma coisa.

Por isso alguns vão embora. Talvez já tenham cumprido a missão deles. Aqueles amigos-irmãos que parece que nunca vão sair de perto, uma hora simplesmente somem. Mas o mais legal de tudo isso é que quando há verdade e cumplicidade, pode ficar o tempo que for sem ver, mas quando se encontra, é como se tivesse sido ontem.

E quando a relação estremece? A parte boa da maturidade em amizades verdadeiras é que tudo se resolve com uma conversa sincera e de coração aberto. Sem cobranças ou ofensas. Apenas expressão de sentimentos com muito respeito.

Uma das coisas mais valiosas da vida é saber que se passou por ela e pôde contar com bons amigos. Não precisam ser muitos. Podem ser poucos, mas que sejam amizades verdadeiras.

Socializar é preciso (?)

Ela tinha uma personalidade que já foi classificada como bicho do mato, antissocial ou até “a que não se mistura”. Mas com o passar dos anos e um pouquinho de autoconhecimento, ela descobriu que só era um pouco introspectiva mesmo.

Não era do tipo que puxa assunto na fila do caixa ou sai contando a vida para o motorista do táxi. Para adentrar naquele universo particular tão confortável pra ela, era preciso tempo e simpatia. Aquela coisa de “bater o santo, sabe?”

Eis que ela se tornou mãe. E se viu tendo que sair dessa zona de conforto ao precisar socializar com outras mães. É a piscina do prédio, o playground, o parque, as mães da escola. Muitas vezes desejava internamente que não encontrasse ninguém, só para não ter que conversar.

Mas à medida que o filho cresce e sua vida social começa a se estabelecer, o relacionamento com as outras mães passa a se fazer necessário. As mães do prédio e as da escola começam a se tornar mais presentes. E ela começa a perceber que pode ser bom. São experiências trocadas e amizades entre mães e filhos que podem nascer.

E, se percebendo, se observando, e, aos poucos, se abrindo para o novo, saindo da zona de conforto do mundinho particular em que ela sempre gostou de viver, ela foi se permitindo aprender com essas relações e, assim, evoluir.

Afinal, já dizia Aristóteles: o homem é um ser social porque precisa dos outros membros da espécie. Seguindo essa teoria, mesmo que algumas pessoas prefiram ter algum isolamento, ninguém vive bem totalmente sozinho. Embora ela ainda goste muito de estar sozinha, é na presença de novas pessoas que ela se sente vista, ouvida e em constante aprendizado. Estar só é bom, mas socializar também pode ser.

A magia do aniversário

Aniversários sempre tiveram grande significado pra mim. Depois que Otto nasceu, comemorar os aninhos dele têm sido ainda mais mágico.

No primeiro aninho fizemos festa, que eu também adoro e achei que era importante para selar o primeiro ano de vida depois de uma chegada meio bagunçada, eu diria rs.

Nos anos seguintes, optei sempre por viagens. Por toda vivência e bagagem que uma viagem traz. Poder aprender vivendo, conhecer coisas novas: lugares, comidas, pessoas. Acho encantador. E, com o passar dos anos e aumento do entendimento dele, ele também tem achado.

Esse ano, pensando em um lugar que fosse bem divertido pra ele, fomos ao Beto Carrero. Normalmente eu faço mil pesquisas, sei tudo sobre o destino antes. Mas, dessa vez, me informei sobre o básico e necessário para ficar numa boa localização e garantir ingressos com antecedência. Só. E, talvez por isso, foi uma grata surpresa. Não criei expectativas, e mesmo assim, elas foram atendidas com muito sucesso.

O parque é imenso, cheio de experiências, bonito e muito bem cuidado. Interessante conhecer a história de empreendedorismo do homem por trás deste sonho que ele fez virar realidade.

Para o Otto, diversão garantida. Ele assistiu aos shows com os olhinhos vidrados. Tomou sorvete, correu, deu risada, viu muitos bichos: “Estou vendo animais que eu não sabia que existiam”, ele disse.

E, de forma espontânea, no dia do aniversário dele, ele disse: “Mamãe, estou me divertindo muito”. E, pra mim, nesse momento o tempo parou e a missão tinha sido cumprida.

Mas a cereja do bolo é o presente:

“Mamãe, hoje é meu aniversário?”

“Sim, filho”

“Mas no aniversário tem que ter presente também 😂”

Então ele escolheu um hot wheels. Ver o carro do show que ele tinha acabado de assistir materializado naquele brinquedo, foi elevar toda empolgação à máxima potência!

Voltou empolgado com as novidades e dizendo que vai contar tudo para os amigos da escola. E eu, com o coração cheio de amor e muitas lembranças boas.

O casal

Juntos há quase 14 anos – sendo 8 deles casados – se conheceram ainda jovens: ele com 28 e ela com 22 anos. Depois que ficaram juntos, não se largaram mais. Tinham suas individualidades respeitadas, mas também amavam estar e curtir programas juntos. Eram viagens, restaurantes ou simplesmente o dolce far niente. Mas sempre juntos.

Após cinco anos de casados e acostumados à vida independente de um jovem casal, eles tiveram um filho. E, apesar de terem familiares e amigos, sempre fizeram questão de ser “só eles”, e não tinham uma rede de apoio próxima: a mãe dela já era falecida, e a sogra morava em outra cidade.

Viveram muito bem essa dinâmica até os 2 anos do menino, quando ele foi para a escola, o que deu um respiro para a mãe, que passava 24 horas dedicada aos cuidados com o filho.

Mesmo assim, jantares românticos e viagens de casal nunca mais fizeram parte de suas vidas. Agora, com o menino prestes a completar 4 anos, foram viajar para um resort com recreação infantil. Não pensaram duas vezes e inscreveram a criança.

O menino, extremamente sociável, amou a experiência, e só queria saber de “ficar com os tios”. O casal, por sua vez, após quase quatro anos, pôde aproveitar almoços e jantares a sós, apreciar uma taça de vinho com calma ou apenas fazer nada à beira da piscina tomando um drink. Tudo sem se preocupar com a inquietação do filho que já havia terminado de comer e queria sair da mesa, por exemplo.

Puderam realmente estar presentes um para o o outro. Ouvir um ao outro. Sem o peso na consciência de estar “deixando o filho”. Ao contrário, ele estava muito feliz. O pai, certas vezes preocupado, ia até os locais da recreação para dar uma espiada no menino e ter certeza de que estava tudo bem.

Ao final da viagem, os três seguiram felizes para casa. O casal, por ter redescoberto momentos de conexão tão importantes a dois; o menino, por ter aberto um novo mundo a sua frente: novos amigos, novas brincadeiras, em um lugar diferente, mas ainda perto dos pais. Voltaram para casa uma criança feliz perguntando à mãe quando iria voltar àquele lugar e um velho-novo casal.

Um novo mundo

Quando se é mãe, por alguns momentos pode parecer que o tempo demora a passar e que algumas fases nunca vão terminar. Como o puerpério, com um micro bebê que demanda muito, consome noites de sono e nos deixa cansada e emocionalmente esgotada.

Curiosamente, essas fases vão embora e, num piscar de olhos, a criança já fez 1, 2, 3 anos… Meu filho vai fazer 4 anos no próximo mês – e tem horas que até eu desacredito do quão rápido isso aconteceu.

Mas o fato é que cada momento é único e cada fase é diferente. Ano passado ele deixou de ser um bebê, largou chupeta, fralda, várias mudanças. Agora, nesse ano, estamos adentrando um novo mundo: o das atividades além da escola.

Ele começou aulas de natação e taekwondo. E é interessante assisti-lo conhecendo essas novidades. Na natação começa a ganhar confiança. Mas o que mais me chamou a atenção foi o taekwondo: ele vai trabalhar disciplina, concentração, companheirismo e trabalho em equipe, respeito pelo professor e pelos coleguinhas… a despeito do desastre que foram as primeiras aulas (rs), acredito no processo e logo ele vai conseguir assimilar e aprender muito.

Por ora, fico aqui, do meu lugar de mãe, observando tudo acontecer, a evolução dele como criança, orgulhosa, claro, mas, acima de tudo, aprendendo junto. É um novo mundo encantador. E, embora me sinta saudosa do bebezinho que até outro dia estava no colo, estou entusiasmada com esse novo mundo e muitos outros que ainda virão.

Sincretismo religioso

Criada por uma mãe muito católica, cresceu frequentando semanalmente as missas de domingo. Foi batizada – pois quem não é vira pagão, segundo a mãe – e fez primeira comunhão.

A mãe ouvia diariamente a missa do padre Marcelo no rádio. Era um ritual sagrado. Mas também flertava com umbanda e espiritismo.

Já adulta, após o falecimento da mãe, passou a se questionar sobre quais desses rituais religiosos fazia sentido para ela. Se não tinham se tornado apenas um hábito, não por convicção, mas por respeito às tradições seguidas por sua mãe.

Chegou à conclusão de que não se encaixa em uma doutrina específica, já que bebe de várias fontes: reza o Pai Nosso e a Ave-Maria todas as noites, acredita em Deus e também fortemente no poder da intuição, da energia; acende incenso diariamente, e, há quase três anos, passou a praticar a meditação, o que a deixa muito centrada e conectada com um poder maior.

Também tem um cantinho com a estátua do Buda e alguns cristais que possuem vibração energética fortíssima e ajudam a afastar as más energias. Uma junção de várias crenças formando sua própria religião.

O importante é a fé depositada em cada um desses pequenos rituais. Por falar nisso, ontem foi dia 1 do mês, dia de soprar canela na porta de casa para atrair prosperidade e fartura.

Hey, brother!

Há uma semana começou o programa mais amado, odiado, polêmico e controverso da história da TV brasileira. O que o Big Brother tem que faz tanto sucesso há tantos anos? E por que tanta gente tem o sonho de entrar na casa mais vigiada do país?

Eu assistia muito as primeiras edições. Depois fui perdendo o interesse e não tinha muita paciência de assistir. Em 2020, uma edição histórica que bateu recordes de audiência e votação – e que coincidiu com o início da pandemia e isolamento social – não pude deixar de acompanhar.

Fato é que é um entretenimento, gera conexão, assunto nas rodinhas de conversa. E, em todos esses anos, refletiu comportamentos e valores da nossa sociedade e é visível as diversas mudanças ao longo do tempo. Láaa no comecinho, eram muitos corpos sarados à mostra, casais formados, pegação, atitudes machistas. Teve até triângulo amoroso – algo que não sei se seria visto com bons olhos atualmente.

Hoje, além de mesclar pessoas famosas com anônimos, são discutidas questões relevantes como gênero, representatividade, preconceitos, valores. Os corpos bombados e a pegação ficaram em último plano.

Para quem entra, além de estar de olho no prêmio gordo de R$ 1,5 milhão, há a busca por desafio, superação, autoconhecimento, conexão, fama, reconhecimento.

Para quem está aqui fora assistindo, é uma grande oportunidade de observar o outro, conhecer histórias de vida – que são da mais variadas possíveis – e aprender com elas, assistir a competitividade e o que as pessoas são capazes de fazer para atingir um objetivo.

Tudo depende do olhar que é dispensado. Para alguns pode ser classificado como baixaria, entretenimento medíocre. Para outros, entretenimento apenas. Por enquanto, simpatizei com essa edição e sigo com olhar curioso acompanhando.

A esteira ergométrica

Nunca fui a pessoa de praticar esportes, movimentar o corpo, fazer ginástica. Na escola sempre dava desculpas pra furar a aula de educação física.

Já na adolescência, ensaiei uma temporada rápida de musculação e foi assim também na fase adulta: fazia matrícula na academia, ficava um tempo, depois parava.

Ano retrasado descobri a yoga e me encontrei. Com a ajuda de um canal no YouTube passei a praticar sozinha em casa e, quase dois anos depois, além de adorar, posso ver pequenos progressos que venho conquistando.

Depois foi a vez da corrida. Comecei e me encantei. Mas, depois de uns seis meses treinando e sem conseguir passar muito dos 3km, me senti desmotivada e parei (mas ando com o mosquitinho me picando para voltar).

Fato é que eu sinto que meu corpo quer e precisa de cuidados e movimento. Achei que essa necessidade estava bem preenchida com a yoga, mas não. Na última consulta com minha médica ela foi direta: tem que fazer musculação; o tempo é cruel e não falha. Para fortalecer, só mesmo com musculação.

Eis que semana passada precisei fazer um teste ergométrico (depois dos 30, a gente começa a ampliar o cardápio de exames que precisa fazer). Estava me achando a atleta.

O médico: você não pratica atividade física, né? Só yoga. Atividade física não, né? (🤷🏼‍♀️😂). Não. Praticava corrida, mas parei (tentei aliviar para o meu lado).

Subi na esteira e comecei a caminhar. Ao lado havia uma escala para avaliar o nível de cansaço. Em poucos minutos, quando o médico me perguntou, eu já me sentia “muito cansada” de acordo com a escala. Ele então me pediu pra dar uma corridinha. Tiro de letra, pensei. Num piscar de olhos meu coração já tinha acelerado e eu havia atingido o nível máximo de cansaço. Ok, pode andar, ele avisou.

O exame acabou em torno de dez minutos. Pareciam eternos. O médico explicou que o uso de máscara não ajuda mesmo. Acatei a desculpa para não me sentir tão mal. Mas saí de lá decidida a mudar esse condicionamento físico sedentário. A musculação – por recomendação médica, e a corrida – por gosto pessoal mesmo, definitivamente devem fazer parte da minha vida em 2022 e além.

Silêncio e individualidade

Ela é filha única, os pais se separaram quando ainda era criança. Morando com a mãe, se acostumou ao silêncio e calmaria que essa convivência trazia. Sem falar da necessidade de individualidade que foi desenvolvendo ao longo do tempo.

Casas cheias, convivência com muitas pessoas e o barulho e conflitos que esses cenários podem gerar nunca foram muito sua praia. Sempre fez tudo para fugir dessas situações.

Dias atrás ela e a família foram convidados para passar uns dias na casa de praia de amigos queridos. Lá estariam muitas pessoas, barulho, falta de rotina, enfim, tudo que ela não gosta. Mesmo assim decidiu aceitar.

Chegando lá a recepção não poderia ser mais calorosa. Todos muito atenciosos. Inclusive as crianças, que receberam o menino, filho único, mas super sociável – ao contrário da mãe, com alegria e curiosidade.

Foram dias mais barulhentos sim, mas mais alegres, que proporcionaram novas amizades ao menino, brincadeiras, momentos de aprendizado e autonomia. Para o casal, muitas conversas e trocas, risadas, drinks e lembranças de outras boas memórias.

Depois de ir embora, ela percebeu que nem tudo precisa pender sempre para um só lado. É possível sair da zona de conforto e transitar por situações que ela acreditava não ser agradáveis por se fechar no seu universo paralelo. Isso é equilíbrio, é autoconhecimento e aprender a lidar com os próprios sentimentos.

Quando chegou na sua casa tranquila e silenciosa, teve saudade dos momentos que passou na casa de praia. E entendeu que ela pode se permitir viver momentos barulhentos e fora da rotina milimetricamente calculada; e, quando voltar, se encontrar novamente dentro da própria individualidade.